A ascensão do ‘High T’: homens, testosterona e a busca pelo desempenho máximo

12

Um número crescente de homens está monitorando, testando e aumentando artificialmente seus níveis de testosterona, alimentados por tendências online, influenciadores e um impulso cultural mais amplo para o máximo desempenho físico e mental. O que antes era considerado uma questão de velhice é agora uma preocupação central para os homens mais jovens, impulsionados pela “manosfera” e por figuras como Joe Rogan e RFK Jr., que discutem abertamente a terapia de reposição de testosterona (TRT).

A obsessão pela testosterona: do declínio à demanda

As prescrições de testosterona nos EUA aumentaram de 7,3 milhões em 2019 para mais de 11 milhões em 2024, de acordo com dados da IQVIA. Isto reflecte uma tendência social mais ampla de homens que procuram activamente formas de contrariar os declínios percebidos na testosterona natural, agora vista como um marcador de vitalidade e masculinidade. Alguns homens monitorizam os seus níveis a cada seis meses, comparando resultados como estatísticas de ginásio, como se maximizar T fosse um desporto competitivo.

No entanto, esta obsessão corre o risco de patologizar homens mais jovens e saudáveis, que podem não necessitar realmente de intervenção hormonal. A tendência explora uma ansiedade mais profunda em relação à masculinidade moderna, onde a força física e mental é cada vez mais equiparada ao domínio da testosterona.

Os métodos: da dieta às drogas

Os homens estão buscando o “High T” através de vários métodos. Mark Holman, um técnico de saúde de 33 anos, aumentou drasticamente sua testosterona de 622 ng/dL para 1.104 ng/dL por meio de dieta (ovos, carne vermelha, ostras, suplementos) e exercícios rigorosos. Embora ele considere o TRT uma “trapaça”, muitos outros recorrem diretamente a ele. A TRT, inicialmente popular entre os homens mais velhos que enfrentam o declínio relacionado com a idade, é agora comercializada agressivamente através de startups de telessaúde e de ciclos de conteúdo algorítmico nas redes sociais.

O apelo é claro: aumento da energia, melhoria da libido, maior foco e uma vantagem percebida no domínio social. Como explica o neurocientista Andrew Huberman, a testosterona influencia o centro de ansiedade do cérebro, fazendo com que o esforço seja gratificante e permitindo que os homens “se inclinem para a dor e o desafio”.

Os riscos e compensações

No entanto, a busca pelo “High T” traz riscos significativos. O TRT suprime a produção natural de testosterona, podendo causar infertilidade, encolhimento testicular, calvície e aumento da rigidez dos tendões. A interrupção da TRT pode levar a sintomas semelhantes aos da abstinência devido a alterações na sinalização da dopamina no cérebro.

Especialistas como Adrian Dobs, da Johns Hopkins, alertam contra o uso indiscriminado: “Não sou contra o tratamento com testosterona, mas acho que é preciso ter cuidado com quem a administra”. A tendência também reflecte o uso de esteróides, com alguns homens até a roubarem os fornecimentos uns dos outros numa busca obsessiva pela optimização hormonal.

Contexto Político e Cultural

O movimento “High T” infiltrou-se na retórica política. Os apoiantes de Donald Trump associam o liberalismo ao baixo nível de testosterona, enquanto figuras como Tucker Carlson promoveram métodos extremos como a bromeoterapia (bronzeamento testicular) como soluções. RFK Jr. elogiou publicamente os níveis de testosterona de Trump, alimentando ainda mais a narrativa de que o domínio hormonal equivale à liderança.

Essa obsessão pela testosterona não se trata apenas de biologia; trata-se de poder, controle e uma tentativa desesperada de recuperar uma sensação de força em um mundo em rápida mudança.

O impulso para a testosterona artificialmente elevada reflete uma ansiedade cultural mais ampla sobre a masculinidade, o desempenho e a erosão percebida dos papéis masculinos tradicionais. Seja através da dieta, das drogas ou da retórica ideológica, a busca pelo “High T” está remodelando a forma como os homens veem os seus corpos, as suas identidades e o seu lugar na sociedade.